ESTAR NA RUA

 

O projeto #ESTARNARUA nasceu da vontade de pensar a cidade, visando a transformação de locais centrais de Florianópolis em lugares mais vivos e de qualidade. Buscamos fomentar uma discussão de como locais de potencial podem ser melhor apropriados pelos cidadãos.

A partir de um levantamento elaborado por nossa equipe dos espaços residuais em áreas centrais da cidade, porém hoje subutilizados, elaboramos uma série ensaios de intervenções urbanas que poderiam contribuir para a transformação da cidade. Esses ensaios são feitos a partir da vivência no local e da observação do papel que ele poderia exercer no recorte urbano onde se encontra, tendo como principal usuário aqueles que hoje já utilizam esse espaço.

Os resultados visuais são sempre divulgados com o intuito de fomentar novas visões de como esses lugares poderiam ter maior qualidade urbana, muitas vezes com ações bastante simples.

MAPA DE INTERVENÇÕES 2016

TERMINAL CENTRAL

RODOVIÁRIA

​     Cidades são a materialização da capacidade do homem para produzir ambientes que lhe sejam favoráveis. Estima-se que até 2050, mais de 70% da população humana viverá no meio urbano e não mais no meio rural. As cidades vêm se consolidando como o habitat “natural”, construído pelo homem e para o homem. O modo como ela é construída e, principalmente, o modo como é apropriada é reflexo tanto da sociedade em que está inserida, quanto das possibilidades que são dadas a seus cidadãos a partir das características de seu espaço urbano. E é esse espaço urbano, o “vazio” dentre os cheios delimitados pelas edificações, que permite a vivência social da população. Esta é a característica intrínseca à cidade como habitat humano, sendo que sua qualidade afeta diretamente a qualidade de vida de seus cidadãos.

     A sociedade contemporânea ainda herda a rotina de prazos, horários e intensa carga de trabalho da era industrial. Essa herança nos traz uma rotina automatizada no espaço urbano. Sequer prestamos atenção no caminho que fazemos de casa para o trabalho, simplesmente somos levados por nossos pés, que já sabem o rumo certo. Essa caminhada, que poderia ser rica em observações do nosso entorno, relações com o próximo e descobertas, é muitas vezes um caminho vazio. Quando passamos por lugares que nos atraem e que poderiam nos despertar a vontade de parar, surgem os “mas…”: “mas é perigoso”; “mas falta iluminação”; “mas parece abandonado”; “mas não tem onde sentar”; “mas parece tão sujo”; “mas falta tempo”; e assim, somos cada vez mais levados a não mais viver a cidade, mudamos nossos espaços de lazer para espaços fechados e​privados, que nos passam a sensação de segurança, nos afastamos do espaço público, nos afastamos da cidade, e nos afastamos do outro. 
     Os cidadãos e sua vivência urbana são a peça chave para o bom funcionamento de uma cidade, para a perpetuação de sua história e preservação de seu patrimônio. É nas ruas onde acontece a conversa mais íntima entre a cidade e os seus usuários, onde nos reconhecemos como parte daquela cidade, de sua história e vice versa.

     Atualmente essa conversa está interrompida, confusa, com palavras não ditas e mal entendidos, por isso é fundamental que o planejamento das cidades retome o seu objetivo mais importante. As cidades devem ser pensadas tendo como foco os seus usuários: as pessoas. Pensar a qualidade espacial e vitalidade dos espaços urbanos é o que nos move como arquitetas e urbanistas. Sonhamos com cidades vivas e saudáveis que possam abrigar a vida social de forma plena. Para isso nos colocamos como agentes de transformação do meio urbano, pensando e agindo para que a cidade alcance todo seu potencial de abrigo humano.


     E para começar a agir, iniciamos o projeto [#estarnarua], que surge da vontade de compartilhar com você, que vive correndo de um lado pro outro, as potencialidades que nós vemos nesses lugares da cidade e como pensamos que poderíamos agregar características positivas. Assim esses espaços poderiam chamar a atenção de todos, gerando uma maior vitalidade nas nossas cidades. A ideia é provocar. Provocar a reflexão sobre o que é o espaço urbano; provocar a criatividade para trabalhar com a realidade existente; provocar uma transformação na cidade em direção à nossa tão imaginada “cidade ideal”.

     Como pretendemos fazer isso? Duas vezes por mês vamos tirar uma tarde para ir em algum cantinho da cidade e ali abordaremos o exercício a partir do método: pense, produza e faça! Ou seja, é chegar, olhar, sentir e... mão na massa! Fazer surgir uma proposta de transformação desse espaço, da forma mais simples e rápida possível, trabalhando com o que existe no lugar escolhido para potencializá-lo de alguma forma. No próximo passo, voltamos ao Ateliê e resumimos tudo isso em uma linguagem gráfica que expresse nossas ideias para compartilhar com vocês. Gostaram? Veio algum lugar em sua mente e deu vontade de pensar a cidade junto com a gente? Fique atento à programação no nosso site!

#1 - ESCADARIA DA UBRO
 

A escadaria da UBRO atualmente

     A União Beneficente Recreativa Operária, UBRO, foi uma entidade responsável por organizar eventos artísticos produzidos por e para a classe operária florianopolitana entre as décadas de 1930 e 1950, tendo sua sede na edificação hoje conhecida como Teatro da UBRO. Datada da década de 1910, esta edificação fica situada numa das antigas escadarias que ligavam o centro à região das chácaras, na parte alta da cidade. Após a dissolução do grupo teatral que mantinha a edificação, o espaço permaneceu fechado por mais de 40 anos, sendo reinaugurado apenas em 2001, pela Fundação Franklin Cascaes.

  Pensando nisso o primeiro #estarnarua foi na Escadaria do Teatro da UBRO, lugar de importância histórica e cultural para a cidade, mas que, seu espaço urbano deixa a desejar. Sendo hoje basicamente utilizado como passagem.

A proposta desenvolvida pela URBE para utilização cultural e melhoria da paisagem urbana na escadaria da UBRO. 

    O objetivo principal dessa intervenção é promover esse espaço urbano como palco de acontecimentos e do encontro, trazendo a cultura e os espetáculos para fora da edificação do teatro. A partir da continuidade dos degraus da escadaria existente criamos novas arquibancadas em recuos que hoje são canteiros. Propomos um projeto paisagístico para marcar o espaço visualmente e criar áreas de sombra para os dias quentes. Uma característica do espaço atual, que está fortemente associada a sua falta de vitalidade, é a relação inexistente das fachadas que cercam a escadaria com a mesma, devido ao tipo uso que ocorre hoje nestas edificações. Acreditamos que a presença de fachadas ativas, com estabelecimentos que possam se apropriar desse espaço como comércios e cafeterias, seria primordial para garantir uma maior vida urbana no local.

#2 - VAZIO NA RUA ANITA GARIBALDI

A Rua Anita Garibaldi, uma das mais antigas ligações entre a área da Catedral e a Avenida Mauro Ramos, passou por um processo de demolição de edificações antigas e construção de novos prédios verticalizados, concentrados principalmente no trecho entre a Rua dos Ilhéus e a Avenida Hercílio Luz. Estes novos prédios em altura mantiveram a falta de afastamento com relação a rua, característica herdada dos edifícios que os antecederam, o que faz com que esta via se torne um espaço apertado.

 
edificação rua anita garibaldi revitalização incêndio
edificação rua anita garibaldi incêndio

Uma das poucas edificações antigas remanescentes foi totalmente destruída em 2015 devido a um incêndio, deixando um vazio no centro da cidade. Vimos nesse espaço a possibilidade de intervir de forma a criar um espaço de respiro para os pedestres, respeitando o alinhamento das fachadas num segundo pavimento, porém mantendo o térreo livre e de uso e públicos.

#3 - RUA BULCÃO VIANA
 

Por ser a capital do estado, Florianópolis possui uma grande quantidade de órgãos governamentais: fóruns, tribunais, Assembleia Legislativa. Estes órgãos concentram-se próximos uns aos outros no centro da cidade, em uma região mais afastada do centro histórico.
 

Devido ao contexto em que foram construídas, estas edificações foram dispostas de forma a desvalorizarem a relação das pessoas com o espaço público, fechando os olhos para rua, criando sensação de insegurança.Na rua Bulcão Viana, entre o Instituto Estadual de Educação e o Tribunal de Contas do estado, a falta de qualificação do espaço é visível. 

rua bulcão viana intervenção urbana mobiliario

Apesar do grande fluxo de pedestres, a calçada é um espaço frio e inseguro, que não desperta o desejo de estar. A proposta neste local é a implantação de mobiliário dinâmico, que instigue o pedestre a demorar-se, como uma praça linear.

#4 - EDIFÍCIO METROPOLITAN
 

Aqui, utilizamos o local, hoje um vazio em frente ao comércio existente no térreo, como um espaço de estar e lazer para apoiar os ricos usos ao redor desse projeto.

Aproveitando o grande movimento de pedestres nessa rua, elevamos a via para o nível das calçadas, dando prioridade e mais segurança às pessoas, que hoje possuem uma calçada bastante apertada.

A cidade está cheia de espaços entre o público e o privado. Geralmente, estes espaços são ociosos, e não contemplam o meio urbano em que estão inseridos.  

Esse é o caso da frente do edifício Metropolitan, na rua Esteves Júnior, próximo à padaria Padeiro de Sevilha. 

 
#5 - FUNDOS DA IGREJA DO ROSÁRIO

É possível que espaços urbanos pensados para possibilitar o estar das pessoas acabem não exercendo o seu maior potencial. Isso pode ocorrer por diversos motivos, um deles é a sua localização e o fluxo de pessoas no entorno. Aqui no centro de Florianópolis, nos fundos da Igreja Nossa Senhora do Rosário, existe uma rua sem saída com a predominância de serviços e residências. No passeio existente, que é maior do que a maioria das calçadas no centro de Florianópolis, estão dispostos alguns bancos e mesas de xadrez. Infelizmente, devido ao tipo de uso do entorno, estes não são utilizados como ocorre na praça XV, na frente da catedral e na rua Felipe Schmidt.

Visitando a área, percebemos que este fim de rua é utilizado como uma área de espera, onde pessoas estacionam seus carros e neles permanecem, a espera de seus familiares e amigos. A proposta é adotar este uso do espaço, estimulando estas pessoas a descerem de seus carros, com um mobiliário flexível que proporcione a apropriação de diversos modos.

Assim surgiu o nosso módulo de mobiliário urbano que integra banco, mesa e floreira. Sobre os módulos reestruturamos o pergolado existente e inserimos dois elementos novos: um banheiro público e um espelho d’água. É sabida a necessidade de mais banheiros públicos pela cidade, principalmente na região central que conta com um grande número de pessoas em situação de rua.

#6 - ESTACIONAMENTO RUA OSMAR CUNHA

Sabemos que os estacionamentos são espaços necessários na cidade, principalmente quando não podemos contar com um bom sistema de transporte público. Tendo isso em vista, criamos um espaço onde este tipo de uso pode conviver com áreas de estar, vegetação e um tipo de percurso que seja mais agradável para os que passam - ou permanecem - por ali a pé.

 

Para este #estarnarua fomos até o encontro da Avenida Osmar Cunha com a Rua Jerômino Coelho, localização privilegiada do centro de Florianópolis, cercada por muitos serviços e com grande circulação de pedestres. O nosso ensaio teve como base um terreno hoje usado para estacionamentos, pois acreditamos que este espaço poderia ser ocupado de forma a privilegiar uma quantidade maior de pessoas, promovendo o convívio e o lazer na área central.

O paredão da Avenida Hercílio Luz é um grande divisor do espaço urbano do centro de Florianópolis. De um lado, a parte histórica da cidade, com seu gabarito mais baixo e ruas estreitas; do outro a avenida mais larga, com prédio altos datados da grande reurbanização da área na década de 20 no século passado. Na esquina do #estarnarua de nº7, a junção dessas duas épocas deixou um espaço sem características nem de uma nem de outra.

#7 - PAREDÃO DA HERCÍLIO LUZ
 

Uma parede cega nos deixou evidente a possibilidade de explorar a arte local: um grande espaço em branco para um grafitti, manifestação com grandes nomes por aqui. Na montagem, trabalho de Valdi-Valdi.

A transição das calçadas deixou também um pequeno alargamento do espaço dos pedestres, deixando um ponto de encontro durante horas de almoço. Dispomos assim alguns mobiliários, dando mais conforto para quem fica ali.

 
#8 - ESQUINA ARTISTA BITTENCOURT

A cidade é construída por seus cheios e vazios. É a relação deles que pode fazer uma cidade mais ou menos humana. 
Há décadas, os vazios são pensados como mero espaço para o automóvel, moldando a cidade de acordo com o melhor para esse meio de transporte individual. Essa abordagem acaba deixando espaços residuais, como é o caso do encontro entre as ruas Artista Bittencourt e José Jacques. 

Hoje sem muita utilização, o espaço tem grande potencial para se estar na rua, pois envolve bastante fluxo de pedestres, além de ser um local central rodeado de prédios residenciais e escolas infantis. Para nosso #estarnarua de nº8, buscamos um cuidado com a vegetação e locação de alguns mobiliários para transformá-lo em um espaço agradável, e até mesmo divertido.

 
#9 - PRAÇA DO ARSENAL - RECIFE

Entre os dias 10 e 21 de outubro, mais acima nas margens do rio Capibaribe, o 1º Workshop de Prototipagem Urbana realizou uma grande intervenção para ocupar e ativar o rio, com mobiliário, iluminação e um grande evento cultural. O propósito maior é incentivar a ocupação de espaços de grande potencial para se estar, mas que hoje são subutilizados.

Com esse propósito em mente, transformamos um largo próximo do Paço do Frevo, no Recife Antigo, em um local para se estar no dia-a-dia. Um espaço de biblioteca e mobiliários externos podem ser utilizados como área de estar, podendo também abrigar pequenas ações culturais em períodos de festividades, quando a demanda por esses espaços é bem maior.

No Recife Antigo, entre os rios Capibaribe e Beberibe, vários pontos culturais foram restaurados em uma grande ação de revitalização urbana. Hoje, o bairro concentra uma enorme quantidade de equipamentos culturais, de grande demanda durante a alta temporada, especialmente no Carnaval. 

 
#10 - RIO DA BULHA

A Avenida Hercílio Luz, que liga a Avenida Mauro Ramos ao aterro da Baía Sul, segue a canalização do rio da Bulha, feita em 1920, no segundo mandato de Hercílio Luz. Na época, a obra pretendia despoluir o rio e retirar uma população de baixa renda que vivia às suas margens. 
Até hoje, o rio segue encoberto por cimento e asfalto, sem nos darmos conta quando passeamos pela avenida.

Nesse 10º ensaio do projeto #ESTARNARUA - o último do ano - intervimos na Avenida Hercílio Luz de forma a instigar uma forma diferente de vermos as águas dentro de nossa cidade. Se nossa relação com nossos inúmeros rios e corpos d'água dentro das cidades fossem mais respeitosos, possivelmente poderíamos usá-los como espaços de lazer urbano. 

© 2015 por URBE ateliê de arquitetura