Sobre centros históricos, cidade contemporânea e projetos de revitalização

January 12, 2016

Vista geral da implantação do projeto de Lina Bo Bardi na Ladeira da Misericórdia, em Salvador

 

"Não vamos mexer em nada, mas vamos mexer em tudo."

-Lina Bo Bardi, sobre o projeto para o Pelourinho de Salvador

 

     A “velha cidade” sobrevive no espaço urbano contemporâneo, espaço este pautado no consumo seja de bens materiais ou não. Essa relação, se não for cuidadosamente regulamentada, no sentido de impor as vontades públicas às das instituições que se interessam pelo espaço e por suas possibilidades de investimentos econômicos, podem levar a perda de características sociais e espaciais que garantem a identidade do local. Para tal é preciso conservar esses espaços históricos de importância à memória coletiva. A memória urbana é importante no sentido de dar continuidade à história local, ela evidencia as mudanças pelas quais o espaço urbano e até mesmo a sociedade passaram, constituindo num elemento chave para a não alienação da história. 

 

“O lugar é (…) histórico, na medida em que conjugando identidade e relação, se define por uma estabilidade mínima, e desde que os que nele vivem possam reconhecer pontos de referência que não têm de ser obrigatoriamente objectos de conhecimento.” 

-Marc Augé

 

     O desenvolvimento urbano dos centros históricos na contemporaneidade deve seguir premissas que reflitam as necessidades da vida contemporânea, sendo necessária uma costura que incentive a sua coexistência. Esse conceito se contrapõe ao modo como foi tratada a questão da cidade histórica no pós-revolução industrial, com as grandes reformas urbanas das cidades européias marcadas pelo urbanismo sanitarista. Segundo Giulio Carlo Argan, esse desinteresse pela preservação gerou uma patologia no espaço urbano: a estagnação da cidade histórica e afirmação da cidade moderna como “anti-histórica”.

     Hoje essa estagnação, ou até mesmo decadência, se expandiu para as esferas social, econômica e física em grande parte dos centros históricos. Esse processo foi intensificado a partir da segunda metade do século XX com o crescimento das cidades em direção à periferia e também com o desenvolvimento de tecnologias voltados à comunicação e transportes, o que culminou em um novo modo de viver e de se apropriar do espaço urbano.

     Para reverter essa situação os governos tem apostado nos processos de revitalização, renovação e/ou requalificação urbana como medida para produzir uma nova dinâmica social e espacial. No entanto, muitos casos são pautados principalmente em iniciativas de desenvolvimento econômico, acabando por destruir as dinâmicas sociais presentes nesses espaços e também colocando-os na mira da indústria imobiliária. Há portanto a necessidade de uma atenção especial do poder publico à essas iniciativas, a fim de realmente preservar seu espaço urbano histórico, em relação às suas questões físicas e sociais. 

 

 

     Principalmente a partir da década de 80 a questão da preservação dos centros históricos segue o caminho de revitalizações, que buscam o incremento econômico das cidades e, para tal, encontra-se no turismo um caminho possível. Desde este período da economia pós-revolução Industrial até os dias atuais, a questão da imagem vinculada ao consumo vem se tornando cada vez mais enfática, enraizada e a cidade não fica de fora dessa questão. O espaço urbano vira mercadoria e, para garantir a sua competitividade no mercado, há de produzir uma imagem a ser vendida mundialmente, impulsionada e fomentada pela globalização. O consumo espraiou-se para além da materialidade; o uso do espaço, a vida da cidade são instigados pelo consumo tendo na própria morfologia urbana, o “exemplo da importância do consumo a nível económico-simbólico, ou seja, o consumo não se prende somente com os bens econômicos mas com a própria simbologia do lugar” (Cavém; 2007, 31). Assim os centros históricos acabaram adquirindo caráter mercadológico, tendendo a se transformar em palco da moda atual, do turismo e da cultura global, surtindo efeitos contrários como, justamente, a perda de sua cultura local e a gentrificação. 

     É assim que se vem cuidando das cidades num geral, em vez de medidas realmente transformadoras e que busquem a melhoria do espaço público, as políticas urbanas ainda são pautadas em detrimento do interesse do capital. 

 

“O patrimônio arquitetônico e cultural, que em sua origem teve a função de proporcionar a ambiência histórica representativa de um determinado período, transforma-se em produto cultural, a ser consumido, restringindo o valor do bem patrimonial ao seu valor econômico.”

- Wilson Ribeiro dos Santos Júnior e Paula Marques Braga

 

     Não há patrimônio se as pessoas não se relacionam com ele e seu espaço. Precisamos, portanto, nos atentar para a melhoria do espaço urbano histórico, a fim de inseri-lo na dinâmica contemporânea e retomar a sua vivibilidade urbana. As revitalizações, segundo Catherine Bidou-Zachariasen, devem ser pensadas então a partir de duas perspectivas: “a respeito das transformações sociais globais na escala local e as características sócio-espaciais sobre as quais aquelas se desenvolvem”. Atento aos seus lugares antropológicos, lugares identitários, históricos e relacionais, fomentadores de relações interpessoais. 

     Essa preocupação de preservação das questões sociais nos projetos de restruturação dos centros históricos esteve presente, por exemplo, no Plano desenvolvido por Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki para o Pelourinho de Salvador, no inicio da década de 90 a pedido do então Prefeito Mário Kertész.

 

“Portanto, de cara, tínhamos que descartar o termo “revitalização”, uma vez que vida ali não faltava. E “com que força”, continuava Lina: ‘prostituição, bebida, drogas e crime, quer coisa mais viva?’”

- Marcelo Ferraz

 

Interior do restaurante Coati, parte integrante do projeto para a Ladeira da Misericórdia

 

     O projeto foi estruturado em experimentações piloto, que tinham por objetivo agregar uma nova dinâmica aos espaços abandonados ou degradados e buscavam a restruturação rápida dos mesmos. Em relação à população residente, a população marginalizada pela sociedade, o projeto contou com um cadastramento de todas as famílias para futuro controle contra a gentrificação pela especulação imobiliária. A idéia era manter a maior quantidade possível dessas famílias habitando nesse lugar. Com o cadastramento de todas as famílias, o projeto previa que, ao serem restauradas as casas em situação de ruína na época, iria-se transformando-as em habitações plurifamiliares que seriam atendidas a partir do critério sócio-econômico e por assim consequentemente, como um “efeito dominó”. Sendo que, no térreo dos casarios, deveria existir um comércio ou serviço a ser tocado por um dos residentes. Dos projetos pilotos, o primeiro que foi realizado, em 1987, foi o da Ladeira da Misericórdia. O projeto previa uma estrutura de contenção para a encosta, realizada em pré-fabricados de argamassa armada - tecnologia desenvolvida por Lelé. Foi pensado e planejado em sua totalidade, desde as contenções até o mobiliário urbano, porém só foram construídas as estruturas iniciais de contenção na ladeira. Todo o projeto foi esquecido já no início dos anos 90, quando o governo anuncia um plano de recuperação pautado no incentivo ao turismo, como tentativa exasperada de melhoria na questão da degradação física do espaço. 

     Esse novo projeto realmente melhorou visualmente a questão da degradação física do ambiente, porém o transformou totalmente. A população que ali morava acabou sendo expulsa da região para a periferia, o comércio é exclusivamente voltado para turistas - restaurantes caros, bares, lojas de souvenirs, os casarios restaurados não contavam de antemão com uma definição certa de seu futuro uso. Foi uma grande “limpeza” social e, por mais que hoje ao se visitar o Pelourinho ele não pareça um lugar vazio (justamente o contrário), o centro histórico de Salvador, marcado desde sua fundação como uma região dos excluídos, quando poderia ter dignificado a vida dessa população acabou por permitir que sua alma fosse embora.

 

 

 

Todas as fotos que ilustram o post são do projeto piloto de Lina Bo Bardi para a Ladeira da Misericórdia, para mais informações sobre este projeto e todo o processo de recuperação do Pelourinho e do centro histórico de Salvador, recomendamos este texto de Marcelo Ferraz.

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